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Imagine o poder da comunicação e amamentação e como elas desempenham um papel fundamental na vida de um bebê. Agora, pense em uma situação na qual essa capacidade essencial está limitada, em que a língua, um instrumento tão vital, está aprisionada. É exatamente isso que a Campanha Nacional Otorrino Pediátrica 2023 se propõe a abordar – a anquiloglossia, ou “língua presa”, e a cirurgia de frenectomia lingual.

Realizada durante todo o mês de setembro pela ABOPe – Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátrica, a campanha busca conscientizar pais e mães sobre a importância da avaliação por profissionais qualificados. No entanto, esse tópico não é apenas sobre divulgar uma cirurgia, mas também explorar as complexidades que envolvem essa condição.

Há controvérsias sobre a realização da frenectomia lingual em recém-nascidos. A polêmica paira sobre quando é apropriado e necessário intervir. Alguns profissionais a realizam precocemente, enquanto outros argumentam sobre a real necessidade de diagnosticar o impacto da “língua presa” nesta fase.

A seguir, apresentaremos uma entrevista exclusiva com as doutoras Cláudia Schweiger, Debora Pazinatto e Juliana Caixeta, otorrinolaringologistas responsáveis pela campanha. Eles esclarecem o que é a anquiloglossia, quais são os sinais indicativos de que um bebê pode necessitar de uma frenectomia lingual e como o tratamento pode ou não impactar positivamente o desenvolvimento da fala e alimentação. Boa leitura!

Entrevista: Dras. Cláudia Schweiger, Debora Pazinatto e Juliana Caixeta

[Portal VoxOtorrino] O que é anquiloglossia ou “língua presa”?

[Dra. Cláudia/Dra. Debora] Anquiloglossia é um termo médico referente a uma condição anatômica em que há limitação da mobilidade da língua causada por um freio lingual alterado. E, popularmente, essa mesma condição é chamada de língua presa.

Quais são os sinais indicativos de que um bebê pode necessitar de uma frenectomia lingual? Como os pais devem estar atentos a esses sinais?

[Dra. Cláudia/Dra. Debora] A frenectomia lingual é uma opção cirúrgica para tratar a anquiloglossia, que nem sempre é sintomática e necessita de tratamento. 

A anquiloglossia pode influenciar na amamentação e em problemas de fala, porém é possível que não seja a única causa e outros fatores devem também ser considerados. Embora seja um tema muito discutido atualmente, ainda há escassez de estudos na literatura atual que possuam a metodologia científica adequada para confirmar tais repercussões.

Diante de um bebê com dificuldade de amamentação e freio lingual curto, a família deve procurar o otorrinolaringologista, que avaliará a anatomia e a função da língua, na maioria das vezes junto ao colega fonoaudiólogo. A decisão de fazer a frenectomia lingual deve ser cuidadosamente avaliada e discutida de forma individualizada, levando em conta os benefícios e riscos específicos de cada paciente.

É fundamental ressaltar que não é necessário realizar frenotomia lingual em bebês com pouca ou nenhuma restrição na mobilidade da língua, para prevenir um distúrbio alimentar ou da fala. 

[Portal VoxOtorrino] Como o tratamento da língua presa em bebês e crianças pode impactar positivamente seu desenvolvimento de fala e alimentação?

[Dra. Juliana] A frenotomia lingual pode facilitar a amamentação em casos selecionados. Entretanto, não existe uma relação direta de causa e efeito da língua presa, nem com a fala nem com a alimentação. A língua presa não atrasa o desenvolvimento da fala. Em situações muito específicas, pode causar dificuldade para pronunciar alguns fonemas. Sobre a alimentação, não há estudos que demonstrem que a língua presa impeça que a criança se alimente bem. O que pode haver é um impacto na amamentação, mas temos de nos lembrar que isso não é a regra. Nem toda criança que faz frenotomia lingual consegue mamar no peito. 

Quais são os principais desafios que os pais podem enfrentar ao identificar os sinais de uma “língua presa” e como a campanha os auxilia nesse processo? 

[Dra. Juliana] Hoje, entendemos que a maior dificuldade das famílias seja a de encontrar profissionais que saibam avaliar adequadamente as crianças. É cada vez mais comum vê-las sendo submetidas a cirurgias, como se fosse imprescindível para a amamentação ou o desenvolvimento adequado da fala, o que não é verdade. Por isso, o importante é que a criança com dificuldade para mamar ou para falar seja avaliada por um otorrinolaringologista. Ele irá avaliar muitas outras coisas (além do freio lingual) e fará a cirurgia, se preciso.

Como a falta de diagnóstico e tratamento adequados da “língua presa” pode impactar o desenvolvimento da criança?

[Dra. Cláudia/Dra. Debora] Quando a língua presa realmente é a principal causa da dificuldade de amamentação, pode resultar em dificuldade na pega, mamilos doloridos, sucção inadequada, baixo ganho de peso do bebê e desmame precoce. A avaliação especializada permite distinguir a anquiloglossia de todos outros possíveis fatores que dificultam a amamentação e direcionar o tratamento mais adequado, que nem sempre é cirúrgico.

Qual é a importância da conscientização sobre a frenectomia lingual como um procedimento válido na otorrinolaringologia pediátrica? 

[Dra. Juliana] Sabemos que entre 2 e 10% das crianças podem ter a língua presa. Dentre essas crianças, nem todas irão precisar de cirurgia. Queremos conscientizar os pais de que a cirurgia é bem-vinda, desde que indicada adequadamente. Os pais devem saber que o procedimento envolve riscos, incluindo sangramentos, lesão de glândulas salivares e cicatrizes que podem deixar a língua mais presa do que antes da cirurgia, e que podem ser difíceis de consertar. É preciso deixar claro que não existe nenhuma técnica que seja superior, ou seja, não importa se a cirurgia é feita a laser, por exemplo, ela não é melhor do que a cirurgia convencional. O que queremos é que apenas as crianças que necessitem desse procedimento sejam encaminhadas para isso.

Como a Campanha Nacional Otorrino Pediátrica planeja educar os pais e desmistificar possíveis equívocos em relação à cirurgia de frenectomia?

[Dra. Cláudia/Dra. Debora] Nos últimos anos, observamos um aumento no diagnóstico de anquiloglossia em bebês e crianças, levando a um número significativo de cirurgias desnecessárias no freio lingual. Lamentavelmente, isso também resultou em um aumento de casos com complicações cirúrgicas e procedimentos realizados em crianças que tinham contraindicações a essa cirurgia.

As famílias de pacientes com anquiloglossia devem ser aconselhados a procurar avaliação médica especializada para avaliação e tratamento individual de cada caso.

Como a Campanha Nacional Otorrino Pediátrica pretende abordar os mitos e controvérsias em torno da realização da frenectomia lingual em recém-nascidos?

[Dra. Juliana] A frenotomia lingual é um procedimento importante e deve ser, sim, realizado, quando bem indicado. Os pais devem tomar cuidado com quem oferece esse procedimento “sem filtros”, como se fosse algo simples e sem riscos. Não há nada simples quando se trata da pessoa mais importante da sua vida, certo? Cuidado com promessas milagrosas! Sabemos que, mesmo após a cirurgia, algumas crianças vão continuar tendo dificuldades para mamar ou para falar. O acompanhamento multidisciplinar, envolvendo fonoaudiólogo, pediatra, odontólogo e otorrinolaringologista, é fundamental para que a criança seja bem assistida. E, por último, existem outras alterações que podem causar sintomas semelhantes ao da língua presa, e que podem não ser diagnosticadas adequadamente se o profissional que atende a criança não tem experiência no assunto.

Como a tecnologia e as redes sociais estão sendo utilizadas pela Campanha Nacional Otorrino Pediátrica para alcançar um maior número de pais e conscientizá-los sobre a importância da avaliação da “língua presa”?

[Dra. Cláudia/Dra. Debora] A tecnologia e as redes sociais são ferramentas poderosas e permitem que as informações alcancem um público mais amplo e de maneira mais acessível. A Campanha Nacional Otorrino Pediátrica visa não apenas alcançar as famílias, mas também os profissionais de saúde que atuam com a população pediátrica. É crucial aumentar a conscientização sobre a necessidade de avaliação especializada, diagnóstico preciso e a reserva da abordagem cirúrgica exclusivamente para casos selecionados que não demonstraram melhora com tratamentos não cirúrgicos. Somente por meio dessas medidas, poderemos reduzir o excesso de diagnósticos e intervenções cirúrgicas desnecessárias, evitando assim suas complicações.

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